domingo, 14 de fevereiro de 2016

O QUE É VAPORWAVE?

Vaporwave é um estilo musical que surgiu na internet no início de 2010. Foi talvez o único sobrevivente real da leva de gêneros que surgiram paralelamente nas comunidades onlines deste período.

Fonte: AM.
Talvez essa sobrevivência se deva ao fato deste gênero se inserir tão bem na pós-modernidade e no capitalismo tardio, criticando nossa condição como seres consumidores e nossa inabilidade de se adaptar as sutis mudanças nas marés da sociedade líquida.

A desconstrução e a reconstrução de clichês culturais de outros períodos é análoga ao hesitante sentimento de nostalgia que a geração que cresceu ou foi submetida a influências culturais deste período sentem.

Fonte: Anônima
Somos deixados para trás com uma montanha feita de Nintedinhos quebrados, TVs de tubo sucateadas e computadores obsoletos. Essa tecnologia por um tempo formava o nosso mundo, mas hoje em dia é incoerente e faz pouquíssimo sentido. A melancolia que esse sentimento invoca é refletida na forma que a música é produzida, incluindo o contexto cultural que a envolve.

Fonte: Pinterest 
O que um dia era de um preto reluzente agora é desbotado e quebradiço, a cultura e o consumo evoluíram enquanto somos deixados com memórias nebulosas, se assemelhando mais a um sentimento ou valor estético do que a realidade passada. Desta forma, a música parodia a cultura consumista e evidencia nossos estados de transição de interesses e tendências.

Isso é Vaporwave.

Abraços.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

TOKYO DRIFTER (1966)

Fonte: DevianArt/darnnerdeel
Tokyo Drifter (Tóquio Violenta, no Brasil), é uma carta de amor á pop-art. As cores berrantes, o estilo arrojado, os cenários geométricos e cuidadosamente decorados, cenas lindamente filmadas e um cativante niilismo permeiam o filme do inicio ao fim. 

Sendo, sem dúvida alguma, um dos mais memoráveis filmes do diretor japonês Seijun Suzuki, também foi seu filme com mais restrições orçamentarias, devido a divergências criativas com o estúdio Nikkatsu. Porém, essa limitação acabou influenciando o fantástico visual do filme, obrigando o diretor a ser criativo com os limitados takes e cenários. O resultado em alguns momentos beira ao surreal, criando um estilo visual inconfundível, lembrando as pinturas geométricas de Mondrian.

Este cuidado com o visual torna o filme uma obra única. Seus personagens e cenários são autênticos, glamorosos e carismáticos, um convite para as imperatividades e ansiedades dos anos 60.
Fonte: Criterion
No filme, acompanhamos Tetsuya "Phoenix Tetsu" Hondo, um ex-yakuza que continua leal a seu antigo chefe, Kurata, mesmo após este ter desativado sua organização criminal. Isso se deve a um estranho ''senso de dever'', que Tetsu carrega por grande parte do filme. Após ter problemas com o líder de sua antiga organização rival, Otsuka, este se vê obrigado a deixar sua vida e seu amor, Chiharu, para trás.

O resto do filme se resume a Tetsu fugindo dos assassinos de Otsuka, em especial "Viper" Tatsuzo, um implacável atirador, que acaba se mostrando o reflexo da cega lealdade de Tetsu á Kurata. Após descobrir a verdadeira face da yakuza, Tetsu retorna a Tóquio, caminhando em direção á um intenso e surreal final.

O roteiro é simples, sendo apenas um fio condutor para o espetáculo sensorial. Mas, mesmo em sua simplicidade, os personagens apresentam grande carisma, tanto em seus figurinos quanto em seus sutis maneirismos que os atores conseguem empregar magistralmente. 
Fonte: Criterion
O estiloso jogo de luzes e câmeras fazem os cenários surreais e minimalistas criarem vida, dando urgência e tensão para as emoções e conflitos dos personagens. O elaborado jogo de luz contribui também nos secos e brutais tiroteios do filme, onde Suzuki brinca com as convenções da ação descerebrada dos filmes B da época, dando limitações claras as habilidades dos personagens.

Porém, o coração do filme, assim como o de seu protagonista, reside na música. Claramente inspirada nas trilhas sonoras de westerns italianos, o arrepiante assovio de Tetsu permeia o filme inteiro, nos lembrando que o personagem, apesar de seu sangue frio e sua lealdade cega, ainda carrega uma doce sensibilidade no coração. Essa paixão pela música é compartilhada entre Tetsu e Chiharu pela belamente brega canção tema do filme, ''tokyo nagaremono'' de Hajime Kaburagi.
Fonte: Criterion
Tokyo Drifter é um produto do seu tempo. Mas, justamente por este filme só poder ter nascido na década de 60 torna a obra atemporal. Temos plena ciência do tempo e do espaço da película, o que faz da cor, do som e da história de Tetsu muito mais interessantes e surreais do que foi no passado.

Sem dúvida alguma é uma obra obrigatória para qualquer amante do cinema asiático, um sonho surreal que nos leva á uma feliz complacência diante das claras limitações técnicas que o filme apresenta. E claro, com uma trilha sonora lindamente brega.

        ''dokode ikitemo nagaremono 
        douse sasurai hitorimino 
        asu ha dokoyara kaze ni kike 
        kawaii anokono mune ni kike 
        aa tokyo nagaremono''

Abraços.

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Amante de tudo que é brega, raro e estranho. Decidiu criar este blog para matar o resto do tempo livre que lhe resta.